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A história da ambrosia

A mitologia grega costumava alimentar seus deuses irascíveis e heróis improváveis com um dos alimentos mais deliciosos que já existiram. Não se sabe com certeza se era doce ou salgado. A textura também é desconhecida. Ao menos para os gregos, a ambrosia, conhecida como a “comida dos deuses”, é o suprassumo de uma refeição – ainda mais quando combinada com o néctar, a bebida divina. Reservada apenas ao Olimpo, a ambrosia também tinha o poder de garantir a imortalidade aos pobres mortais que tivessem a felicidade de experimentá-la. É bem provável que o costume de elogiar um prato delicioso com um “é dos deuses” tenha sido inspirado neste mito grego.

Cá na Terra, a nossa ambrosia é uma sobremesa de receita singela, à base de leite, ovos e açúcar, com textura singular, cheia de gruminhos. Apesar de não ter poderes mágicos, garante bons momentos de felicidade para quem a come. A origem do doce é ibérica. “Desde a Idade Média, a doçaria portuguesa se baseia em dois ingredientes: ovo e açúcar. Essa é a base de centenas de receitas conventuais. A ambrosia nasce nesse contexto e também da necessidade de aproveitar tudo: leite, ovo, cravo e canela”, diz o antropólogo Raul Lody, autor de Vocabulário do Açúcar (ed. Senac) e organizador do Dicionário do Doceiro Brasileiro, do Dr. Antonio José de Souza Rego (ed. Senac), um receituário do século 19.

A razão para o surgimento de um repertório vasto de doces feitos com apenas dois ingredientes pode ser explicado pela grande oferta de ovos em Portugal. Nos séculos 18 e 19, o país era um dos maiores produtores de ovos da Europa, cujas claras eram usadas na clarificação de vinhos e para engomar roupas. A fartura de açúcar decorria da indústria lusitana nas Américas desde o século 15. “A comida, e a ambrosia é um exemplo disso, é um texto visual que pode ser lido como um recorte histórico econômico e social de uma época”, diz Lody.

Bem presente em Minas Gerais, a receita da ambrosia varia de acordo com a região. Segundo a chef Elzinha Nunes, do restaurante Dona Lucinha, em São Paulo, há ainda duas variações: espera-marido, mais cremosa, sem os pedaços característicos da ambrosia, e espera-esposa, que leva um pouco de suco de laranja no preparo. Uma curiosidade: no sul dos Estados Unidos, há outra versão de ambrosia completamente diferente da nossa: trata-se de um tipo de salada de frutas, incrementada com lascas de coco, nozes, cereja maraschino, marshmallow ou chantilly.

No Dona Lucinha, sempre tem ambrosia – do jeitinho mineiro, claro. “Nossa ambrosia é feita em tacho de cobre, com leite integral gordo e ovos caipiras para ficar mais gostosa”, diz Elzinha Nunes. Nesta edição, ela compartilha a receita da ambrosia como é preparada no Serro, sua cidade natal, em Minas Gerais.

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