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De carona pela Alemanha

Entre os alemães, o espírito beatnik não morreu: para mais de 3 milhões, viajar de carona faz parte da rotina. Uma tradição de longa data no país, potencializada hoje em dia por aplicativos de celular.

O carro está rodando a 140 km por hora na autobahn. Contando com o motorista, quatro pessoas fazem uma viagem com duração de seis horas, saindo de Bonn, no oeste do país, com destino a Berlim. Ninguém se conhece. Todos estão de carona. O espírito beatnick não morreu. Muito pelo contrário. Ele está cada vez mais vivo com a conscientização de um mundo com menos carros nas ruas e mais conexão.

Jack Kerouac ficaria impressionado com as facilidades atuais. Embora um dedo ainda seja basicamente tudo que se precisa para pôr o pé na estrada, agora, ao invés de acenar para o acaso, tudo se resolve num aplicativo de telefone móvel. É só digitar a cidade para onde pretende ir, fazer a transferência do dinheiro online e encontrar com o motorista que ofereceu a viagem no horário marcado. Na Alemanha, quem observar bem nas estações de trem e de ônibus, vai ver pessoas paradas com mochilas nas costas e celulares em mãos. Muitas delas esperam por suas caronas.

Do iphone do iraniano que vive na Alemanha há seis anos, a letra da música Blossom, da Banda Milky Chance, fala que é “preciso confiar em alguém”. Está fazendo 26 graus num daqueles dias de primavera para cineasta algum botar defeito. O calor da luz do sol se mistura com o vento fresco que sempre sopra por aqui, e a sensação é boa. A conversa flui naturalmente.

A engenheira indiana que cresceu em Nova York e agora passa por uma temporada em Berlim, estava em Colônia, em uma feira de decoração de interiores. Ela desenvolve colchões customizados. Priyanka está morando em Berlim há oito meses e fala alemão com sotaque americano. Mudando do alemão para o inglês sempre que uma palavra lhe falta, ela conta que Trump é a maior vergonha para os nova-iorquinos e que eles não compartilham do pensamento tacanho do novo presidente estadunidense. Ela acredita, e espera, que ele não complete o mandato.

Tradição: Em 1985 alemães pedem carona em Berlim com destino à Alemanha Ocidental

Tradição: Em 1985 alemães pedem carona em Berlim com destino à Alemanha Ocidental

O único alemão no Mercedes-Benz coupé de banco de couro é Thorsten. Ele tem 24 anos, é cientista e trabalha com pesquisas para a cura da aids. Conta que eventualmente escreve artigos para revistas de ciência, mas ganha mal, precisa fazer algo para mudar. Tirando isso, diz, a vida é boa por aqui. O carro desliza pela B1, uma das rotas mais movimentadas da Alemanha, nas proximidades de Düsseldorf. É tanta árvore, tanto verde, tanto pólen voando no céu azul que a paisagem nem parece real, mas uma descrição saída de um dos contos do escritor dinamarquês Hans Andersen.

Enquanto para um brasileiro uma viagem dessas pode significar um ato de liberdade, um exercício para aprender a confiar, para três milhões de alemães é só mais um meio de transporte, puro cotidiano. Nos últimos 12 meses, mais de 500 mil toneladas de gasolina foram economizadas, isso corresponde a 250 mil viagens ao redor do globo. Mas isso não é bem uma novidade. Thorsten revela que essas caronas são tradição em terras germânicas. Há 30 anos, o pai dele já ia a uma Central de Caronas, dizia para onde planejava ir e fazia um cadastro. O pessoal da Central procurava então por alguém que fosse para o mesmo lugar e, depois de alguns dias, ligava para confirmar a viagem.

Berlim se aproxima. O carro atravessa agora o Havel pela ponte Glienicke, que liga Potsdam à capital da Alemanha. Na época da Guerra Fria, soviéticos e americanos utilizaram esta ponte em três momentos diferentes para trocar seus agentes de espionagem. Desde então, ela ficou conhecida como a Ponte dos Espiões. O trajeto que custou 25 euros chega ao fim. Um percurso de seis horas, maçante para quem quer chegar rápido de um ponto ao outro; um prazer para quem adora estar “on the road”, cruzar cidades, fazer amizade, se deparar com o novo e, ainda por cima, economizar.

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