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“Não sou, nunca fui bairrista”, diz Francisco Souto Neto

Curitiba, 5 de agosto de 1990.

Não sou, nunca fui bairrista. O bairrismo provém de uma visão estreita de pessoas que consideram sua cidade a melhor de todas e menosprezam e hostilizam, ou as demais ou alguma que acreditem especialmente competitiva sob algum aspecto e, assim ameaçadora. Bairrismo é uma espécie de paixão doentia. Não nasci no Paraná; sou paulista. Mas sinto-me à vontade para referir-me a “minha” cidade de Curitiba.

A admiração que sinto por ela é racional, uma espécie de amor equilibrado e maduro que flui livre, acima das paixões pessoais ou políticas. Essa admiração tem motivos de sobejo, e variados, que vêm de longe. Por exemplo, o respeito da administração pública à memória arquitetônica da cidade, o sistema pioneiro das canaletas exclusivas para ônibus e as áreas centrais conquistadas para o pedestre…A Rua das Flores fez escola no Brasil e no mundo, da Kbmagergade de Copenhague a Calle Florida de Buenos Aires.

Com retorno de Jaime Lerner à prefeitura, era de se esperar por grandes inovações em nosso panorama urbano. E a maior delas está prestes a tornar-se realidade: a volta do bonde às ruas curitibanas. Não um bonde comum, mas um tipo aperfeiçoado de transporte coletivo que funcionará como uma espécie de metrô de superfície. Quando os bondes foram retirados das cidades brasileiras, justificava-se que os mesmos atrapalhavam o trânsito e, que se tinham tornados obsoletos.

Ora, mas vemos que os bondes nas cidades de países chamados “primeiro mundo”, continuavam viáveis mesmo quando se trata de modelos convencionais e antigos, como aqueles que, para citar um só exemplo, trafegam em Roma, cidade que conta com um moderno metrô e com trânsito bastante caótico, pior que o brasileiro. No entanto que belo exemplo de “coexistência pacífica”, funcional e muito útil aos usuários, essa praticada em Roma!

Bondes de cidades norte americanas e europeias continuam circulando entre outros veículos, tal como víamos, no passado, nas cidades brasileiras. Mas o “bonde moderno” ou “super-bonde”(melhor ainda, o ultra-bonde) curitibano será muito eficaz, trafegará em canaletas exclusivas, contará com os futuristas “Estações Tubo” e, em tudo se distinguirá dos velhos padrões dos bondes que conhecemos. Será um transporte coletivo que nos antecipará o século que nos avizinha. É natural que haja oponentes ao projeto. Também muita gente protestou contra a transformação das primeiras quadras da rua XV de Novembro em área de pedestres. Agora quem se atreveria a reclamar da existência da Rua das Flores! Imagino que seus antigos oponentes defendem hoje a sua ampliação. O ideal seria, realmente, que algumas vias centrais se tornassem subterrâneas para os veículos, com a superfície transformada em calçadões, da mesma forma como subterrâneo será o ultra-bonde que, na sua primeira linha norte-sul submergirá sob asfalto ao lado do Passeio Público, para reaparecer pelas imediações da rua Visconde de Guarapuava.

Ao defender o bonde curitibano, não sou guiado pela nostalgia, apesar da saudade que tenho do “bonde camarão” paulistano e da paixão pelos bondes europeus. Trata-se, isto sim, de acreditar num sistema de transporte coletivo eficiente, confortável, agradável. É inovador, sobretudo pela ideia das “estações de tubo”. Quando o bonde for inaugurado, trafegando com freqüência de metrô, deixarei meu automóvel na garagem e passarei a usar esse meio de transporte coletivo que haverá, uma vez, e com maior intensidade, de projetar em nossa “Cidade Laboratório” para além de nossas fronteiras, fazendo-a admirada e seguida no Brasil e no mundo. O retorno do bonde é bem vindo. Devemos lutar como pudermos, em apoio à sua implantação e a futura multiplicação das suas linhas. Curitiba merece!

FRANCISCO SOUTO NETO

Ex- Assessor da Diretoria do Banestado para Assuntos de Cultura.

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